quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Se finjo que te amo,
É por que finjo ser teu?
Te amo mais por fingires que finge
Que desconfias do que não sabes,
Te amo por ser meu
O teu amor que não me deu,
Te amo por ser rasa
Qualquer explicação profunda
Do teu amor. Te amo com palavra
Corpo e solidão, e encharco minhas
Pálpebras com o curso do rio de teu
Ventre.

Ainda serás minha hoje a noite,
E no alvorecer do eternamente.

Vieira Hartmann

O Abismo

Mijo no bidê! Escarro na pia da cozinha!
Desconstruo o que é real sobre o
Realismo inoportuno das horas e
Grito meu anseio largo em silêncio.

Sofro de um mal de raiz vermelha.
Mal de acinzentados olhos que só
Olham para dentro. E o futuro me da
Vertigem como se escalasse um abismo

Com frutos nas pedras, ninhos vigiados
Por aves de rapina, lagartos que
Piscam as membranas pra focar galhos

Ao invés de me focar, mais um cervo,
Diminuído pelo só privilégio de ser
Tão vivo quanto tudo no abismo.

Vieira Hartmann

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Para o amigo Alexandre Carvalho

(inspirado na Ode à Alegria de Schiller, poema musicado por Beethoven na Nona Sinfonia)

“Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!...”

... o som desloca-se ao longo
E ele para longe
Como um close para o fim
Chega ao começo sua vida,
Ó, Irmão da filha do Elíseo!,
Bardo solto que navega.
Muitos dizem que em nenhum lugar mora
Mas ele é vivo onde passa
E sempre sabe bem quando está em casa.

O som aumenta
Seus pensamentos no mar cessam
Enquanto percebe na tônica um novo naipe
Um arranjo invejável...
- Uma coca antes do embarque?
Esquecesse de sua irmã,
E mesmo com uma luz vespertina
Tentando rigorosamente luzir pelo sorriso
Ele não deixa de perceber que já é noite...

“...Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável...”

Ouve as últimas notas da nona
Ri pra si mesmo com esforço
Para seguir alegremente
-“Como o herói diante da vitória”-
Enquanto atravessa as portas da ala de embarque.

Responde sem pensar ao segurança
e nem sabe se pensou ou no que respondeu
5 minutos depois.
O tempo malicioso finge passar lento
Mas mais astuto ele percebe que a sinfonia acabou...
- Acabou?

Mais uma fez ri sozinho
Dessa vez endereça a natureza tal feito,
Agradece os beijos e vinho
E os amigos leais até a morte.

É privilegiado pelo céu estrelado,
Que no vidro somado ao seu reflexo
Desenha-o sob as estrelas...
E então, finalmente percebe que está em casa,
Pois lá, solto sob as estrelas
É onde ele mora.

Vieira Hartmann

sábado, 15 de agosto de 2009

Couro morto

A amargura é armadura
E a roupa de antes foi posta pra lavar.
Saio na noite alta,
Alto como uma folha que cai
Respirando indigestão de cedo amanhã
Na sombra madrugada que me amparo
Desastro pelas ruas
Tonteando as tuas curvas
Sem nitidez, sem odor, sem faro.

Vieira Hartmann

domingo, 24 de maio de 2009

Pessoa Primeira

N’algum momento impróprio,
tente me fazer cantar sua
Nota: - oferece me, você, a
Última página da história.

Entre os castigos de sempre
Prefiro a dubiedade aos silêncios
Monossilábicos.

Vieira Hartmann

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Nome de Guerra

Olhou para o espelho e
ordenou: quebra-te!,
mas nada aconteceu.

Retornou ao espelho,
quis convencer-se que
não se chamava mais
aquilo que sempre a
chamaram,
mas não se convenceu.

Voltou a noite e relutou
para acreditar: o espelho
intacto e mais límpido que
nunca mostrava-lhe, de
forma cristalina, que era
outra,
mas que nunca amanheceu.

De manhã correu pro
armário, pegou suas
roupas, que não a vestiam:

olhou pro espelho, vestiu
suas roupas e seu nome
de guerra, que seus pais
escolheram, e como tinha
que sair, trabalhar e viver:
adormeceu.

Vieira Hartmann

terça-feira, 5 de maio de 2009

Desenho Retrato

Seus olhos se misturam a vermelha cor
sangue de alguém, mesmo de forma fugente
se atira contra os olhos, e nunca partes
definitivamente,

seu sorriso plástico alterna e mente e se
choca contra a própria vontade de sorrir
plasticamente, vira e sai e nunca parte
definitivamente,

sua voz ancora na margem do vão de
minha memória amargurada com a vasta
repetição de desconsolos por ti causados.

Ancoras e deixas em meu porto teu casco,
partes em parte, nunca definitivamente.

Vieira Hartmann