domingo, 24 de maio de 2009

Pessoa Primeira

N’algum momento impróprio,
tente me fazer cantar sua
Nota: - oferece me, você, a
Última página da história.

Entre os castigos de sempre
Prefiro a dubiedade aos silêncios
Monossilábicos.

Vieira Hartmann

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Nome de Guerra

Olhou para o espelho e
ordenou: quebra-te!,
mas nada aconteceu.

Retornou ao espelho,
quis convencer-se que
não se chamava mais
aquilo que sempre a
chamaram,
mas não se convenceu.

Voltou a noite e relutou
para acreditar: o espelho
intacto e mais límpido que
nunca mostrava-lhe, de
forma cristalina, que era
outra,
mas que nunca amanheceu.

De manhã correu pro
armário, pegou suas
roupas, que não a vestiam:

olhou pro espelho, vestiu
suas roupas e seu nome
de guerra, que seus pais
escolheram, e como tinha
que sair, trabalhar e viver:
adormeceu.

Vieira Hartmann

terça-feira, 5 de maio de 2009

Desenho Retrato

Seus olhos se misturam a vermelha cor
sangue de alguém, mesmo de forma fugente
se atira contra os olhos, e nunca partes
definitivamente,

seu sorriso plástico alterna e mente e se
choca contra a própria vontade de sorrir
plasticamente, vira e sai e nunca parte
definitivamente,

sua voz ancora na margem do vão de
minha memória amargurada com a vasta
repetição de desconsolos por ti causados.

Ancoras e deixas em meu porto teu casco,
partes em parte, nunca definitivamente.

Vieira Hartmann

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Viveiros

Procuro meus dias nas minhas noites
inacabadas. Nos cantos da casa, nas
caixas de papelão amassadas. Nos
ocasos e alvoradas do lustre da sala.

Recebo meus dias em imagens soturnas,
deformações noturnas nos sonhos diários,
e quase sempre diurnos. Procuro na noite
a nau da tarde perdida, e sorrio pra lua.

Me movo como o peão no xadrez, esgueirando
sempre avante, vislumbrando a diagonal e
um final que me faria forte. Mas sempre chego

nesses longos corredores de paredes ocas,
procurando os dias em vigilantes noitadas,
e só os acho em poemas: nos viveiros das mágoas.

Vieira Hartmann

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Moça da bolsa

Segue numa estrada curvilínea: onde
sempre me é apresentado novos
horizontes. Canso de pensar quando
vai acabar o que tanto me cansa!

Olha na calçada: pés de moça que
brincam de escorregar o meio fio,
decidindo se a margem pode não
ser tocada. Mantenho-me,

digno-me apenas a olhar para a
sinalização: Verde! escorrega
o pé e desliza a mão na bolsa.

Perde o ônibus, solta a bolsa, se
perde entre beijos, e se encontra: na vã
esperança de uma estrada em linha reta.

Vieira Hartmann

Gélida, impávida, disforme!

Acordo com uma lembrança falsa
de um atordoante sonho
quente, formatado e coerente.
Faz lembrar-me dos custos
maiores, e sempre maiores, que os lucros
dos cacos que fui,
e que sempre serei
medroso, insone, indiferente,
e agoniado pela eterna espera
De um adeus inesperado.

Vieira Hartmann

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Boas Vindas

Quando curvam-se aos pés de falsas majestades,
quando o átrio, que não passa de um quarto
um pouco mais arrumado, está cheio de falsa
solenidade, é que enxergo minha falta de coerência.

Emprego minhas palavras por pena, meu desenho
disforme é qualquer sentimento alheio a ela, minha
falsa inspiração é minha falta de bom senso,
meu ombro amigo, meu pescoço impede a cabeça tocar.

Mesmo assim luto bravamente contra meus
invisíveis inimigos, caminho na contramão de um
horizonte claro, fingindo reger do escuro a multidão.

Brindo ao desagradável para agradar quem brinda.
Atrás de mim, minha casa continua a desmoronar
enquanto, insistentemente, eu varro o tapete de boas vindas.

Vieira Hartmann