segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Portas

Entrar pela porta da frente
ou pela porta pela de trás,
pra mim tanto faz,
arrombo se necessário!
Decido o que é meu
e não sou solidário.
Não divido!
Já sou dividido por minhas dúvidas,
já sou perseguido pela minha consciência
suja, morna e desprovida de paciência.
Já entrei pela porta da frente
e guardo as chaves,
já entrei pelo porta de trás,
assumindo minha leviandade.
Agora pouco me importa
ir pela frontal ou pela traseira,
essa casa minha
e volto quando quero,
volto quando decido,
o meu quando não importa,
visitantes jamais serão bem-vindos!

Rodrigo Hellmuth

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sobriedade

Reflexos vítreos
exibem lacunas
a serem preenchidas,
as horas passam lentas
o estômago não diz nada
olho para todos os lados
de uma sala mal desenhada:
- parece viagem transcendental.
Sinto-me aliviado por um breve momento.

Vieira Hartmann

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Novo Ano

Mal começa o ano
tantas coisas por terminar.
Nem cheiro de novo tem!
Ano novo,velhas datas,
datas que me esperam
como noivos no altar
esperam sua noiva:
tronco erguido,
uma certeza disfarçada de esperança,
uma esperança disfarçada de certeza,
e um véu tão pesado.
Não sei se é esse peso que carrego
ou se é algo que o futuro me guarda.
Certo mesmo é não esperar.

Vieira Hartmann

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Oriento-me

Oriento-me por estrelas apagadas,
extintas orientam minhas mãos,
minhas palavras e meus apelos
impensados por vezes.
Com um tom desorientado
guio como cego no fim da tarde,
sobresaindo sobre aqueles que
insistem em tudo ver.
Ouvidos por surdos
discursam mudos
sobre a vida que acaba,
enxergando cegos
seu belo céu estrelado.

E eu rio:
ontem mesmo outra estrela apagou.

Rodrigo Hellmuth

Longínqua Infância

trago à memória
todos os efeitos
dos feitos matutos
de minha infância
dos pinéis das esquinas
das carambolas
degustadas quase
nos topos de suas árvores
lembro
lembro do pão na padaria
e do troco que virava
polenguinhos e sonhos
ou nos sonhos ficavam
quando faltava no estoque
tiro da memória nada
nem as cavadas para a búlica
nem as embaixadas frustradas
as vezes o oceano de minhas lembranças
traz com a maré o que eu menos espero
da voz de alguém odiado
aos vultos que ficam
no lugar dos rostos adorados
como a música da areia
(que lembro só porque ouvi semana passada)
algumas coisas até voltam
outras estarão sempre enterradas
lembro, mas não volto
me adianto
aprendi na minha infância que
quem pensa que o tempo volta
anda sempre atrasado

Vieira Hartmann

Dissabor

com um copo na mão
olho pra janela.
Na janela, não sei mais
se o que vejo
é seu liquido escorrido,
cansado de manter-se inerte,
ou se são somente pingos,
restos de um céu
que continua a se esconder.
E olha que a chuva passou faz tempo.
Engraçado,
só no último gole d'água
costumo sentir seu desgosto.

Vieira Hartmann

Poemas para meus poemas

Nasço,
nasço sem data
sem segregar cheiro de onde.

Levanto,
sem o olhar malvisto de deboche
e super bem-humorado.

Ando,
guio com a mão destra distendida
e erguida para o apreço.

Corro,
sem fugir de segmentos
e sem perseguir nostalgia.

Caio,
deliciando o saboroso gosto de perda
e alardeando toda a felicidade do sofrer.

Durmo,
e quando durmo,
durmo bem
mas volto,
volto quando fico:
de mim renasço.

Rodrigo Hellmuth